domingo, 11 de outubro de 2009

Delírios Oníricos - XIV

- Mãe.

O garoto não conseguia dormir.
- O que é?

Na verdade ela já sabia. Por diversas noites isso acontecia. As vezes um pesadelo ou outro, outras vezes era o barulho de moscas que incomodava o garoto.

- Não to conseguindo dormir.

A mãe se aproximava e olhava o ambiente.
Madrugada fria, janela aberta. Eram sim as moscas. E nunca era bom sinal.

O garoto tinha essa maldita premonição que sempre o acompanhava. Antes ou depois de um fato ruim ele sempre ouvia um barulho, como enxame de moscas. A mulher, precavida, já havia pesquisado a respeito. Nada muito profundo, mas ela se apegara a uma descrição. A do demônio.

Ela nunca quis ir muito a fundo. Sempre algo a incomodava a respeito disso. Talvez medo de encontrar a verdade. Ela tinha apenas uma vaga idéia da profundidade em que esse assunto poderia levá-la. Seu medo era muito grande, e apenas um instinto materno a motivava a continuar na busca por uma resposta. Era apenas uma mãe, zelando pelo sono do filho.

O garoto se mexia de olhos fechados na cama. A mãe colocava a mão sobre a cabeça do menino e começava a clamar. Tentava em vão tirar o incômodo barulho da cabeça do garoto. Ela não podia enxergar as imagens que passavam pela cabeça do garoto. Carniça, putrefação, moscas e mais moscas. Seus sonhos premonitivos eram sempre relacionados a morte. O cão na varanda começou a vomitar. Uma atmosfera negativa começava a tomar conta do lugar.

Os olhos do garoto se abriram. Olhava para a mãe e os olhos viravam, aparecendo toda a esclera dos olhos do menino. A mãe em pânico aumentava o clamor. O garoto sufocado esclamou antes de um subito desmaio: FILEAD.

Mais uma informação para a pesquisa. A mãe checou se o garoto estava bem e levantou-se para buscar um copo com água. Antes de chegar na cozinha, anotou a palavra esquisita num bloco de papel. Iria velar pela noite do filho e pensar em tudo aquilo.

Ela precisava prosseguir. Precisava chegar ao fim disso. Porque logo seu filho havia sido escolhido? Porque todo esse mal.

Aquela mãe não dormiria. Enquanto seu garoto não tivesse paz.

quarta-feira, 20 de agosto de 2008

Delírios Oníricos - XIII

Era noite na cidade. O toque do rosto na pele perfumada fazia com que aquele cheiro ficasse em sua pele. Ao voltar para o seu recinto, o sono acompanhava o fechar da porta. Pela proximidade dos lábios com as narinas, aquele cheiro inebriante envolvia aquele momento de descanso. Era pouco, mas o suficiente para tornar o sonho inevitavelmente bom.

Alguns minutos e ele já dormia com profundidade. E sempre sonhava com sua amada. Os sonhos iam de campos a jardins, cidades a paisagens, momentos. Sonhos abstratos sempre embalados pelo mesmo cheiro, que invertia entre o sonho e a realidade. A lembrança do sonho nunca ficava consigo, mas a sensação de bem estar e o perfume dormiam e acordavam com ele.

Pela manhã, a água quente do chuveiro fazia com que o cheiro e o gosto doce descesse por todo o corpo, libertando daquela sensação hipnótica que o cercava por toda noite. As mãos iam ao rosto tentando talvez captar ou prender algo que perdia e conquistava todos os dias de forma viciante e prazerosa. Seus sonhos sempre começavam acordado. Com o toque dos lábios naquele pescoço. E em seus sonhos sempre acabava sozinho, com o medo de algum dia não ter aquela porção de encanto para adormecer.

E assim os dias seguiam, e ele sempre esperava pelo dia em que aquele perfume não iria ao findar da noite, mas estaria por todo o tempo, o encontrando acordado no despertar da manhã.

sexta-feira, 4 de janeiro de 2008

Delírios Oníricos - XII

O que torna uma lenda real?

O fato de existir uma prova viva dessa lenda.

Na cidade de Nesfart existia uma lenda que acontecia a cada cem anos. Uma vez a cada cem anos um habitante da cidade tinha a oportunidade de encontrar a chave de Nesfart. Aquele que a encontrasse teria a oportunidade de voltar ao passado e alterar a história de sua vida. Talvez a história da cidade, ou a história do mundo.

Diz a lenda que o primeiro a encontrá-la foi Sandalor. Sandalor era um homem amargurado por ter deixado um grande negócio, apostando que não seria bem sucedido nas mãos de Vernit, um amigo de infância. Vernit acreditou na idéia e prosperou, deixando Sandalor numa situação constrangedora. Pelo fato de ser extremamente orgulhoso, Sandalor tornou-se um errante, vagando pelo mundo fugindo de sua própria história.

Sandalor passava entre dois vales, perto das terras perdidas, quando encontrou uma chave enterrada. Ao dormir, ele sonhou com uma porta. Como estava com essa chave na mão, ele resolveu abrir a tal porta. A mesma o conduziu a um grande salão, onde se deparou com outras 7 portas, capaz de conduzi-lo a 7 lugares distintos. As sete portas tinham um numero, que na verdade eram fases da vida de Sandalor.

Ele teve a chance de escolher em qual época desejava voltar, e como tinha consciência do futuro, teve a chance de alterar todo o passado. Ao escolher a porta com o número 24, Sandalor acordou mais jovem, no seu próprio passado e sem a chave na mão. Sandalor aceitou a proposta de sociedade com Vernit, que havia negado por orgulho na época e se tornou um homem muito rico e bem sucedido. Após isso ele voltou ao lugar onde havia encontrado a chave e resolveu morar lá, na tentativa de encontrá-la novamente. Sem sucesso em sua busca, acabou levando seus negócios para aquela região e edificou a cidade de Nesfart entre os dois vales.

Sandalor fez aquela cidade prosperar, e deixou um memorial no local onde havia encontrado a chave. Ele não sabia que outra pessoa teria a oportunidade de encontrá-la novamente cem anos mais tarde em outro local daquele vale.

A lenda espalhou-se e ganhou fama em outras regiões, porém nunca deixou de ser uma lenda para se tornar algo real, porque aqueles que encontravam a chave pensavam apenas em si mesmo, e jamais no coletivo. O único a registrar a lenda foi Sandalor, que escreveu uma dedicatória a chave de Nesfart no memorial construido entre os dois vales.

quinta-feira, 3 de janeiro de 2008

Delírios Oníricos - XI

Meu sonho era não perder o sonho.
Sonho bom é aquele que te prende no surreal.
Você acorda e ainda pensa estar sonhando.
Você consegue abrir os olhos dormindo,
E fechar os olhos acordado.

Dizem que sonhos são reflexos da realidade.
E dizem que a realidade se constrói com sonhos.
Nós é que discernirmos o que é sonho e o que é real
O que se passa de dia e o que de noite se passa.
O que a lua esconde, e o que o sol ilumina.

Pesadelos também são sonhos.
Não são sonhos perdidos, sonhos frustrados.
Não são coisas que não aconteceram.
Pesadelos são palpáveis e presentes,
E acontecem em tempo real.

Você pode estar sonhando um pesadelo.
A moeda é a mesma. As faces são diferentes.
Existem sonho medíocre, existe sonho ruim.
Mas pesadelo você sabe quando é.
Ele ultrapassa qualquer barreira.

Pode um sonho se tornar realidade.
Pode um pesadelo simplesmente acabar.
Nos dois lados você pode simplesmente acordar.
Você pode escolher entre qual deles viver.
Seja qual for a escolha, quem faz o real é você.

quinta-feira, 27 de dezembro de 2007

Primeiro Livro do Site

Pessoas,

O objetivo era publicar o primeiro livro com 30 contos. Mas ao verificar o tamanho de cada conto, resolvi adiantar a publicação, e lançar os próximos contos em outro volume. Portanto, estou lançando o primeiro livro - Delírios Oníricos Volume 1, 1ª Edição - pela Editora Medula.

O livro possui contos de Ficção, Terror e Fantasia. Todos os contos relacionados a sonhos. Tive ainda o privilégio de ter a participação do escritor Hugo Máximo, autor de 6 livros, na ilustração da Capa e no Prefácio, tendo ainda a participação especial dos autores Douglas Ianistsky e Neyla Fernandes.

Meus agradecimentos especiais ficam para a Editora Medula, para o Hugo Máximo e para todos que postaram contos e comentários.

Em breve o link para download.
E aguardo sugestões e críticas.

Um grande abraço.

quarta-feira, 5 de dezembro de 2007

Pausa para divulgação...




Pessoas,

Saiu meu primeiro livro de contos. Histórias que os mortos contam - Volume I
Gênero: Ficção Especulativa - Horror, Suspense, Ficção Científica & Fantasia.
O livro foi criado com a participação de 7 autores e com ilustrações do autor do projeto (Hugo Maximo).

Participei com o conto "Delírios Oníricos III" (Página 27 - "Sonhos Eternos").

Para baixar o livro completo, clique aqui

Baixem e comentem!!!

Um abraço!

quinta-feira, 22 de novembro de 2007

Delírios Oníricos - X

Delírios Oníricos - X

- E então? O que me diz?
- Tenho dois ases.
- Droga. Perdi de novo.

Fat já estava confuso. Tinha perdido a concentração quando Nelly na rodada passada havia perdido tudo o que tinha.

- Não tenho mais o que apostar. E se apostássemos as roupas?
- Fat... Poupe-me!
- Tenho algo melhor a propor.

Kayne estava inspirado. Estava disposto a propor algo bem mais ousado.

- Eu aposto um pedaço da minha pele.
- O que? Como assim?
- Um pedaço da minha pele. 10 centímetros por 10 centímetros. Pode fazer o que quiser.
- Você é louco.

Fat parecia impressionado. Nelly resolveu entrar na brincadeira.

- E o que quer em troca?
- Quero um sonho teu.

Nelly levantou uma sobrancelha.

- Não entendi.
- Eu estou participando de um projeto na minha faculdade que estuda os sonhos. Quero uma noite de sono tua para fazer um teste.
- Isso é bruxaria?
- Não, não. É uma experiência interessante.
- E você Fat? Vai entrar com o que?
- Pelo visto tem que ser algo exótico não é?
- Claro. 10 centímetros da pele de Jaston, um sonho meu e você? Entra com o que?

Fat pensou. Não tinha muita criatividade. Nem nada exótico para propor.

- Kayne, me dá uma idéia ai.
- Sei lá. Vai passar uma semana na Tailândia. É considerado o país mais exótico da Ásia.

Fat coçou o queixo.

- Tenho nojo de insetos.

Kayne olhou nos olhos de Kelly, sorriu e disse:

- Então temos um novo dealer.
- Certo. Black Jack então...
- Senhores, apenas por curiosidade, qual será o destino do prêmio de vocês?
- Boa pergunta banqueiro...

Kayne olhos nos olhos de Nelly e perguntou:

- O que você vai fazer com a minha pele?
- Cortar.
- O que?
- Diz à lenda que alguns membros da Yakuza compram pele humana com um grande número de tatuagens, para confeccionarem abajures e cortinas.
- Grande coisa. Quantas tatuagens dão para fazer em 10 centímetros?
Nelly deu uma risadinha.

- Só vou fazer uma. "Esse corpo já foi meu. Com amor, Pedrão".
Fat não agüentou. Caiu na gargalhada.

Kayne sorriu e disse:

- Muito engraçado. Mas para isso acontecer, você teria que ganhar.

Nelly engoliu o riso e lembrou. "Toda moeda possui duas faces".

- O que você vai fazer com meu sonho?
- Vou entrar nele.
- Como assim?
- Vou te aplicar uma injeção, você vai dormir por cerca de 8 horas e vai acordar. Simples assim.

Fat deu uma risada.

- Já ouvi falar desse tipo de experiência. Mas não era com agulha não. Era com bebida. E o nome não era "projeto da faculdade". Era “Boa noite Cinderela”.
- Muito engraçado. Mas eu também vou dormir. A diferença está no composto da minha injeção. É isso que vai permitir que eu entre consciente no sonho dela.

Nelly resolveu provocar.

- E dentro do meu sonho, você vai fazer o que comigo?
- O que você acha? Kayne sorriu.
- Pode ser interessante. Mas para isso acontecer, você teria que ganhar.
- Então... Vamos às cartas!