Quarta-feira, 20 de Agosto de 2008

Delírios Oníricos - IIIX

Era noite na cidade. O toque do rosto na pele perfumada fazia com que aquele cheiro ficasse em sua pele. Ao voltar para o seu recinto, o sono acompanhava o fechar da porta. Pela proximidade dos lábios com as narinas, aquele cheiro inebriante envolvia aquele momento de descanso. Era pouco, mas o suficiente para tornar o sonho inevitavelmente bom.

Alguns minutos e ele já dormia com profundidade. E sempre sonhava com sua amada. Os sonhos iam de campos a jardins, cidades a paisagens, momentos. Sonhos abstratos sempre embalados pelo mesmo cheiro, que invertia entre o sonho e a realidade. A lembrança do sonho nunca ficava consigo, mas a sensação de bem estar e o perfume dormiam e acordavam com ele.

Pela manhã, a água quente do chuveiro fazia com que o cheiro e o gosto doce descesse por todo o corpo, libertando daquela sensação hipnótica que o cercava por toda noite. As mãos iam ao rosto tentando talvez captar ou prender algo que perdia e conquistava todos os dias de forma viciante e prazerosa. Seus sonhos sempre começavam acordado. Com o toque dos lábios naquele pescoço. E em seus sonhos sempre acabava sozinho, com o medo de algum dia não ter aquela porção de encanto para adormecer.

E assim os dias seguiam, e ele sempre esperava pelo dia em que aquele perfume não iria ao findar da noite, mas estaria por todo o tempo, o encontrando acordado no despertar da manhã.

Sexta-feira, 4 de Janeiro de 2008

Delírios Oníricos - IIX

O que torna uma lenda real?

O fato de existir uma prova viva dessa lenda.

Na cidade de Nesfart existia uma lenda que acontecia a cada cem anos. Uma vez a cada cem anos um habitante da cidade tinha a oportunidade de encontrar a chave de Nesfart. Aquele que a encontrasse teria a oportunidade de voltar ao passado e alterar a história de sua vida. Talvez a história da cidade, ou a história do mundo.

Diz a lenda que o primeiro a encontrá-la foi Sandalor. Sandalor era um homem amargurado por ter deixado um grande negócio, apostando que não seria bem sucedido nas mãos de Vernit, um amigo de infância. Vernit acreditou na idéia e prosperou, deixando Sandalor numa situação constrangedora. Pelo fato de ser extremamente orgulhoso, Sandalor tornou-se um errante, vagando pelo mundo fugindo de sua própria história.

Sandalor passava entre dois vales, perto das terras perdidas, quando encontrou uma chave enterrada. Ao dormir, ele sonhou com uma porta. Como estava com essa chave na mão, ele resolveu abrir a tal porta. A mesma o conduziu a um grande salão, onde se deparou com outras 7 portas, capaz de conduzi-lo a 7 lugares distintos. As sete portas tinham um numero, que na verdade eram fases da vida de Sandalor.

Ele teve a chance de escolher em qual época desejava voltar, e como tinha consciência do futuro, teve a chance de alterar todo o passado. Ao escolher a porta com o número 24, Sandalor acordou mais jovem, no seu próprio passado e sem a chave na mão. Sandalor aceitou a proposta de sociedade com Vernit, que havia negado por orgulho na época e se tornou um homem muito rico e bem sucedido. Após isso ele voltou ao lugar onde havia encontrado a chave e resolveu morar lá, na tentativa de encontrá-la novamente. Sem sucesso em sua busca, acabou levando seus negócios para aquela região e edificou a cidade de Nesfart entre os dois vales.

Sandalor fez aquela cidade prosperar, e deixou um memorial no local onde havia encontrado a chave. Ele não sabia que outra pessoa teria a oportunidade de encontrá-la novamente cem anos mais tarde em outro local daquele vale.

A lenda espalhou-se e ganhou fama em outras regiões, porém nunca deixou de ser uma lenda para se tornar algo real, porque aqueles que encontravam a chave pensavam apenas em si mesmo, e jamais no coletivo. O único a registrar a lenda foi Sandalor, que escreveu uma dedicatória a chave de Nesfart no memorial construido entre os dois vales.

Quinta-feira, 3 de Janeiro de 2008

Delírios Oníricos - IX

Meu sonho era não perder o sonho.
Sonho bom é aquele que te prende no surreal.
Você acorda e ainda pensa estar sonhando.
Você consegue abrir os olhos dormindo,
E fechar os olhos acordado.

Dizem que sonhos são reflexos da realidade.
E dizem que a realidade se constrói com sonhos.
Nós é que discernirmos o que é sonho e o que é real
O que se passa de dia e o que de noite se passa.
O que a lua esconde, e o que o sol ilumina.

Pesadelos também são sonhos.
Não são sonhos perdidos, sonhos frustrados.
Não são coisas que não aconteceram.
Pesadelos são palpáveis e presentes,
E acontecem em tempo real.

Você pode estar sonhando um pesadelo.
A moeda é a mesma. As faces são diferentes.
Existem sonho medíocre, existe sonho ruim.
Mas pesadelo você sabe quando é.
Ele ultrapassa qualquer barreira.

Pode um sonho se tornar realidade.
Pode um pesadelo simplesmente acabar.
Nos dois lados você pode simplesmente acordar.
Você pode escolher entre qual deles viver.
Seja qual for a escolha, quem faz o real é você.

Quinta-feira, 27 de Dezembro de 2007

Primeiro Livro do Site


Pessoas,

O objetivo era publicar o primeiro livro com 30 contos. Mas ao verificar o tamanho de cada conto, resolvi adiantar a publicação, e lançar os próximos contos em outro volume. Portanto, estou lançando o primeiro livro - Delírios Oníricos Volume 1, 1ª Edição - pela Editora Medula.

O livro possui contos de Ficção, Terror e Fantasia. Todos os contos relacionados a sonhos. Tive ainda o privilégio de ter a participação do escritor Hugo Máximo, autor de 6 livros, na ilustração da Capa e no Prefácio, tendo ainda a participação especial dos autores Douglas Ianistsky e Neyla Fernandes.

Meus agradecimentos especiais ficam para a Editora Medula, para o Hugo Máximo e para todos que postaram contos e comentários.

Baixe grátis o livro. Clique Aqui
E aguardo sugestões e críticas.

Um grande abraço.

Quarta-feira, 5 de Dezembro de 2007

Pausa para divulgação...




Pessoas,

Saiu meu primeiro livro de contos. Histórias que os mortos contam - Volume I
Gênero: Ficção Especulativa - Horror, Suspense, Ficção Científica & Fantasia.
O livro foi criado com a participação de 7 autores e com ilustrações do autor do projeto (Hugo Maximo).

Participei com o conto "Delírios Oníricos III" (Página 27 - "Sonhos Eternos").

Para baixar o livro completo, clique aqui

Baixem e comentem!!!

Um abraço!

Quinta-feira, 22 de Novembro de 2007

Delírios Oníricos - X

Delírios Oníricos - X

- E então? O que me diz?
- Tenho dois ases.
- Droga. Perdi de novo.

Fat já estava confuso. Tinha perdido a concentração quando Nelly na rodada passada havia perdido tudo o que tinha.

- Não tenho mais o que apostar. E se apostássemos as roupas?
- Fat... Poupe-me!
- Tenho algo melhor a propor.

Kayne estava inspirado. Estava disposto a propor algo bem mais ousado.

- Eu aposto um pedaço da minha pele.
- O que? Como assim?
- Um pedaço da minha pele. 10 centímetros por 10 centímetros. Pode fazer o que quiser.
- Você é louco.

Fat parecia impressionado. Nelly resolveu entrar na brincadeira.

- E o que quer em troca?
- Quero um sonho teu.

Nelly levantou uma sobrancelha.

- Não entendi.
- Eu estou participando de um projeto na minha faculdade que estuda os sonhos. Quero uma noite de sono tua para fazer um teste.
- Isso é bruxaria?
- Não, não. É uma experiência interessante.
- E você Fat? Vai entrar com o que?
- Pelo visto tem que ser algo exótico não é?
- Claro. 10 centímetros da pele de Jaston, um sonho meu e você? Entra com o que?

Fat pensou. Não tinha muita criatividade. Nem nada exótico para propor.

- Kayne, me dá uma idéia ai.
- Sei lá. Vai passar uma semana na Tailândia. É considerado o país mais exótico da Ásia.

Fat coçou o queixo.

- Tenho nojo de insetos.

Kayne olhou nos olhos de Kelly, sorriu e disse:

- Então temos um novo dealer.
- Certo. Black Jack então...
- Senhores, apenas por curiosidade, qual será o destino do prêmio de vocês?
- Boa pergunta banqueiro...

Kayne olhos nos olhos de Nelly e perguntou:

- O que você vai fazer com a minha pele?
- Cortar.
- O que?
- Diz à lenda que alguns membros da Yakuza compram pele humana com um grande número de tatuagens, para confeccionarem abajures e cortinas.
- Grande coisa. Quantas tatuagens dão para fazer em 10 centímetros?
Nelly deu uma risadinha.

- Só vou fazer uma. "Esse corpo já foi meu. Com amor, Pedrão".
Fat não agüentou. Caiu na gargalhada.

Kayne sorriu e disse:

- Muito engraçado. Mas para isso acontecer, você teria que ganhar.

Nelly engoliu o riso e lembrou. "Toda moeda possui duas faces".

- O que você vai fazer com meu sonho?
- Vou entrar nele.
- Como assim?
- Vou te aplicar uma injeção, você vai dormir por cerca de 8 horas e vai acordar. Simples assim.

Fat deu uma risada.

- Já ouvi falar desse tipo de experiência. Mas não era com agulha não. Era com bebida. E o nome não era "projeto da faculdade". Era “Boa noite Cinderela”.
- Muito engraçado. Mas eu também vou dormir. A diferença está no composto da minha injeção. É isso que vai permitir que eu entre consciente no sonho dela.

Nelly resolveu provocar.

- E dentro do meu sonho, você vai fazer o que comigo?
- O que você acha? Kayne sorriu.
- Pode ser interessante. Mas para isso acontecer, você teria que ganhar.
- Então... Vamos às cartas!

Sexta-feira, 16 de Novembro de 2007

Delírios Oníricos - IX

Em frente ao computador, Sinder não sabia mais o que pensar. Suas visão estava pesada. 72 horas sem dormir, 72 horas sem pistas, 72 horas sem solução. Faltava uma única peça. Todos os corpos foram encontrados, o rastro de Phil estava bem determinado, mas ainda faltava uma peça. Algo não se encaixava. E estava anoitecendo novamente.p>

Dois motivos não deixavam Sinder dormir. O primeiro era a cena que ele presenciou no cemitério da cidade. Uma obra digna de Mary Shelley. Dentro de um caixão de vidro, uma criatura foi moldada com partes de cadáveres. Sete partes diferentes foram costuradas. Dois braços, duas pernas, o tronco era dividido no meio e a cabeça, formando um corpo completo. Desse corpo, seis partes eram de vítimas de Phil. Olhar para aquilo deixou marcas na mente e na alma de Sinder. O sangue tingia a linha que costurava as parte. Sangue quente que ainda saia do corpo e gotejava no caixão. O cheiro de putrefação com formol causava náuseas aos investigadores. Cena bizarra.

Sinder tinha todos os elementos nas mãos. As vítimas, quem cometeu os crimes, o motivo do criminoso, objetos utilizados, pessoas envolvidas, testemunhas, tudo. Só não tinha Phil, o autor da maior atrocidade cometida na história daquela cidade. Foi difícil descobrir o crime. A investigação só conseguiu chegar ao criminoso quando ele resolveu enterrar sua obra prima. Foi através da denúncia do coveiro que a polícia chegou ao local. Mas não chegaram a tempo de alcançar o criminoso. Bastardos inúteis.

A segunda vítima já apresentava características de que um crime hediondo viria por ai. Phil assassinou a primeira criança, uma menina de 10 anos com um corte no lado esquerdo do pescoço. Retirou dessa criança o braço direito e deixou o corpo no ferro velho, no porta-malas de um carro antigo. O dono do lugar levou cerca de quatro dias para identificar que era um cadáver e fazer uma denúncia. Sinder levantou-se e foi buscar um café. Era agoniante estar envolvido em toda essa história. Assumir a homicídios não foi tão boa idéia assim. Dinheiro.

Na seqüência, o assassino retirou o tronco, a perna esquerda, o braço esquerdo, outro tronco e a perna direita de diferentes crianças, meninos e meninas, ambos com a mesma idade. Seus corpos foram encontrados também em diferentes partes da cidade. Não havia ligação entre os assassinatos, até a cena no cemitério, que denunciou não só o criminoso, mas a motivação dele. Sinder pensou: Talvez eu fizesse o mesmo. Somos todos desequilibrados. Nesse mundo não se pode mais confiar na sanidade de alguém.

O motivo de Phil era nobre. Vingança. Phil teve a filha raptada, estuprada e esquartejada. A única parte do corpo da filha de Phil que a polícia encontrou foi à cabeça. Todas as outras partes de seu corpo foram espalhadas e as equipes de busca mobilizadas não tiveram paciência suficiente para conceber ao pai um enterro digno para sua filha, vítima da ineficiência da mesma polícia. Cinco anos se passaram e Phil arquitetou toda essa vingança, que seria aplicada a polícia, ao criminoso e a sociedade. Sinder parecia não aceitar. "O que eu tenho a ver com isso?" Pensou. Estava ali há dois meses. Não conseguiu tempo nem para organizar a papelada e o setor, e já estava envolvido num crime com seis assassinatos.

O corpo estava completo, o criminoso foragido, e Sinder estava ali, montando todo o rastro do bandido, tentando entender sua mente, sua dor, onde estaria após cometer tal atrocidade. Sinder desistiu de pensar mais. O mapa da cidade com pontos vermelhos na parede já estava confundindo a visão. Resolveu se deitar um pouco. No sofá mesmo. Não tinha esperanças de conseguir dormir, visto que já estava a exatas 72h sem conseguir pregar os olhos.

Ao deitar, Sinder foi envolvido numa atmosfera de sono pesado. Minutos depois estava sonhando. Um sonho estranho, como se estivesse em um parque. Tudo muito claro e enevoado. Estava correndo nesse parque com uma garotinha. A filha de Phil, que o conduzia segurando em sua mão, sorrindo e correndo, querendo mostrar alguma coisa. Ela correu, conduzindo Sinder até um brinquedo giratório, no centro do parque. Ao sentar com a garotinha no brinquedo, Sinder percebeu que ela ainda não começara a brincadeira. Sinder perguntou: - Não quer brincar? Ela disse: - Ainda não. Estou esperando o papai.

Subitamente Sinder acordou. Um parque. Seria o local onde Phil estava foragido? Sinder olhou para o relógio e percebeu que haviam se passado 7 horas. Resolveu fazer um levantamento de todos os parques da cidade, e quais poderiam ter o tal brinquedo. Eram quatro parques. Ao olhar para aquele mapa, Sinder fechou os olhos, lembrando do estranho sonho que tivera e não teve dúvida. Era o parque que ficava na região leste da cidade. Sinder resolveu ir sozinho. Aqueles malditos policiais não conseguiram localizar nada até aquele momento. Porque ajudariam nessa ocasião?

Era 1h30 da madrugada quando Sinder saiu da sala, levando apenas sua pistola automática, seu sobretudo, um par de algemas e a chave do carro. Algo dizia que aquela garota queria encontrar o pai. Ou queria apenas justiça. Não dá mais pra saber o que se passa na mente de alguém. Sinder chegou ao local, caminhou em direção ao brinquedo e percebeu um vulto lá. Era mesmo Phil, sentado no brinquedo de cabeça baixa, arrastando os pés no chão. Sinder sem o menor medo ou preocupação, sentou ao lado de Phil, respeitando o silêncio que a situação merecia.

Após alguns minutos, Phil quebrou o silêncio:

- Veio me prender.

- Sim. Sinder disse também de cabeça baixa.

- Como me encontrou?

- Algo me diz que sua filha quer vê-lo.

Lágrimas lentamente desceram do rosto de Phil. Parecia que ele sabia sua condenação. Certamente aquele estado aplicaria pena de morte para aqueles crimes. O destino iria decidir tal reencontro. Mas nada mais importava. Aquela alma amargurada já havia sofrido todo escárnio e dor que qualquer alma no mundo poderia suportar, e todas aquelas mortes foram apenas uma tentativa de extravasar uma dor que jamais passaria. Forte mesmo são os que conseguem suportar isso sem reação. Apenas aceitando, confiando na lei divina da "ação e reação". Esperando que a justiça seja justa. Algo que nem sempre acontece.